PROTESTOS AQUI E LÁ.
A França vive uma onda de protestos como de costume. Desta vez o fator que desencadeia a reação popular, eu lá engloba a classe média, é a possibilidade de alteração nas regras da aposentadoria.
Este texto não é sobre a proposta de alteração, nem sobre os prós e contras, para isso leiam as notícias que saem na imprensa aos milhares. O que quero discutir aqui é: Por que protestar na França é bonito e aqui é considerada uma coisa feia?
Preste atenção, você que é militante ou não, no Brasil sempre que dissemos que estamos ou que fomos a um protesto somos olhados de forma estranha. Sempre que alguém nos diz que em um protesto esteve, tendemos a perguntar, por quê?
Como assim por quê? Se a pessoa protestou é por que ela tem discordância sobre o que está acontecendo. Mas mesmo assim teimamos em perguntar sempre imaginando que a pessoa foi em busca de uma promoção pessoal ou por um partidarismo político. Pois que seja, qual o problema? Isso tudo são opções de conduta e de vida que as pessoas fazem.
Notem que os protestos franceses e, podem ficar brabos mas é verdade, os argentinos também, são compostos por todo o tipo de pessoas. Lá estão pessoas ligadas a sindicatos, partidos políticos, movimentos sociais, mas também estão pessoas que não fazem parte destes órgãos políticos. Simplesmente acham que devem estar ali manifestando a sua vontade e/ou opinião. E assim o fazem.
Em sociedades onde a democracia está consolidada não há medo de se participar de protestos. Conversando com as pessoas podemos notar que muitas delas gostariam de participar, mas não o fazem por medo. Medo da repressão, medo de perder o emprego ou medo de “pagar mico”, ou seja, passar vergonha.
A mídia brasileira também tem sua culpa nesta questão. Um protesto aqui sempre é tratado como arruaça. A única exceção é quando o protesto é contra a violência, neste caso a coisa muda de figura. Fora isso pessoas que se juntam com cartazes e faixas e que gritem palavras de ordem são logo taxados de “desocupados”. Já vivi essa experiência de ser chamado assim quando era estudante da UFPel e participei de uma greve em 2001.
Ao mesmo tempo em que os manifestantes aqui são tratados como pessoas que não tem mais o que fazer, os protestos de fora mas principalmente europeus são tratados de forma heróica, inclusive. Vemos manchetes do tipo :”Os parisienses protestem contra uma lei, absurda, que muda as regras do primeiro emprego”. Depois vem o comentarista e diz que assim, dessa forma que os parisienses acabaram com a Bastilha e mesmo com o Absolutismo.
Como pode a mesma coisa ser tratada de modo tão diferente só pelo lado do Atlântico que ela se localiza?
Penso em várias possibilidades de resposta para esta pergunta. Mas deixo isso para os leitores.
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