segunda-feira, 16 de abril de 2012

ANGRA III FICA NA "PEDRA OCA"!




Por Luciana Montenegro Valente*
Edição No. 101
No momento em que o mundo vive mais um acidente nuclear, desta vez ocasionado pela força maior da Natureza, no caso da Usina de Fukushima no Japão, cujos reatores vem explodindo e contaminando a população com níveis elevadíssimos de radiação, em decorrência do terremoto e tsunami ocorridos na área, é preciso lembrar que o Brasil se prepara para mais uma tragédia anunciada.
A Usina Nuclear de Angra III, que faz parte da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, localizada na Praia de Itaorna (que em guarani significa “pedra podre”), está em fase de instalação. Após ter tido sua construção paralisada em 1986, foi anunciada sua retomada a partir de setembro de 2008, pelo Ministério das Minas e Energia. De fato, as obras de Angra III foram incluídas no PAC e já receberam as Licenças de Instalação do IBAMA e de Construção Preliminar da CNEN – Comissão Nacional de Energia Nuclear. O início oficial das obras foi em 01/06/2010 e a usina deverá entrar em operação em 2015.
Agora, porque construir uma usina nuclear num local cujo nome indígena é decorrente dos constantes deslizamentos de terras comuns na região? Será que não podemos aprender nada com o exemplo do Japão? Será que no caso de um acidente natural, teremos os mesmos meios tecnológicos para mitigar os irreversíveis impactos ambientais decorrentes de uma contaminação radioativa sobre o meio e a população?
Segundo o Greenpeace, que tem uma campanha mundial contra a energia nuclear: “Investir em usinas nucleares sempre foi arriscado. O que acontece agora no Japão é só mais um exemplo do perigo que a insistência de governos pode causar à humanidade”. O teor completo do documento “A energia do apocalipse” pode ser acessado aqui.
Segundo o responsável pela campanha de energia do Greenpeace Brasil, Ricardo Baiteloa:
No Brasil, apesar de termos ‘apenas’ duas usinas – número irrisório se comparado ao Japão, que possui 55 plantas – o problema não é diferente. Transparência é palavra rara no vocabulário dos administradores do complexo nuclear brasileiro, que não assumem a responsabilidade, por exemplo, da contaminação provocada pela mina de urânio de Caetité. Por aqui a fiscalização e a regulação do setor nuclear cabem ao mesmo órgão, o Conselho Nacional de Energia Nuclear (CNEN), trazendo uma série de contradições entre o desenvolvimento dessas atividades e a garantia da segurança das operações.
A contradição é que o mesmo setor que promove atividades nucleares e que quer se expandir é aquele que tem que fiscalizar e coibir atividades ilegais e infrações, o que obviamente acaba nunca acontecendo. Ainda assim o governo brasileiro planeja construir oito novas usinas nos próximos 20 anos. E como se não bastasse, o ilustríssimo ministro de Minas e Energia Edson Lobão, junto com a Eletronuclear, tem ambições ainda maiores: a divulgação de um estudo com 40 locais que poderiam receber plantas nucleares. Para especialistas, está mais do que provado que o Brasil não precisa conviver com os riscos da energia nuclear”.
De fato, o que um país que tem tanta disponibilidade (como nenhum outro) de fontes alternativas e limpas de energia – biomassa, vento, sol, etc – vai fazer se metendo numa enrascada dessas? Será que não aprendemos nada com a experiência do Césio 137 em Goiânia, cujas vítimas estão até hoje desprotegidas pelo Estado brasileiro?
Ainda, de acordo com o site do Greenpeace:
De acordo com estudo desenvolvido pelo Greenpeace, o país das usinas nucleares pode se ver livre desta tecnologia perigosa até 2050, sem prejuízo ao abastecimento e com crescimento limpo e seguro. Lançado em 2008, a versão japonesa do relatório Revolução Energética, estudo que traz previsões de como os países podem se desenvolver mais e melhor com o uso das energias limpas, mostra que o Japão pode ter sua matriz energética 60% renovável nos próximos 40 anos. Para isto, bastaria focar seus investimentos em eólica, biomassa, geotérmica e solar.
Graças a seu alto potencial para eficiência energética, com aparelhos mais modernos que consomem menos energia e à queda progressiva do crescimento populacional, o Japão pode também diminuir seu consumo em 53% nos próximos 40 anos. O resultado deste caminho seria uma redução de 77% de emissões de CO2 até 2050, economia e geração de empregos sem que nem mais uma poeira radioativa ameaçasse a população da ilha. Pelas projeções do relatório, o último reator nuclear daria adeus ao país até 2045. O Brasil lançou a nova versão do seu relatório Revolução Energética no fim de 2010.
O conteúdo do Relatório brasileiro, com as respectivas projeções, pode ser visto aqui. O fato é que precisamos de uma Revolução Energética Mundial, e o Brasil tem todos os meios para protagonizar interna e externamente essa mudança de paradigma econômico. Mas parece que nossa “cegueira” não nos permite aproveitar tal oportunidade. Continuamos imunes aos exemplos cotidianos como se nada tivessem a nos ensinar.
Os acidentes nucleares figuram na história do ambientalismo mundial como divisores de águas na tomada de consciência e na mudança de estratégias políticas e econômicas. De fato, foi somente com o lançamento das bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, na II Guerra, que o mundo percebeu a característica de perenidade dos danos ambientais, que não se submetem a fronteiras geopolíticas, mas ao contrário, produzem seus efeitos por tempo e espaço indeterminados, tornando-se mesmo irreversíveis e imprescritíveis.
Daí o nascimento do Princípio da Precaução, previsto na Declaração do Rio de Janeiro/92 (Princípio 15), segundo o qual:
Quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.
Agora, de novo o Japão vive um acidente nuclear que já obrigou a evacuação de 45 mil pessoas num perímetro de 20km ao redor da usina nuclear de Fukushima. Segundo Baitelo, do Greenpeace:
É inegável que a utilização da energia nuclear é perigosa mesmo para fins pacíficos e a questão da segurança, mesmo em reatores mais modernos, está longe de ser ideal. Além dos impactos à população afetada, os japoneses pagam o preço, uma vez que 20% da energia nacional foi comprometida com o estado de alerta dos reatores”.
E o que nós temos com isso? Aparentemente, para o Governo Brasileiro, nada, já que continuamos com a construção de nossa próxima usina nuclear bem em cima da “pedra podre” que desde os tempos em que a Mata Atlântica era habitada somente pelos guaranis já era conhecida como localidade sujeita a acidentes geológicos. Estamos vivendo sob “riscos calculados”, ou seja, ainda não superamos o paradigma da “sociedade de risco”, conceituada por Ulrich Beck, que iniciou com a Revolução Industrial.
Assim, nós continuamos apostando na “sorte”, e mesmo quando as evidências de nossa falta de precaução são gritantes, preferimos creditar qualquer acidente ambiental à força maior, fatos da natureza, etc. Não, o aquecimento global, que é o pano de fundo para as tragédias ambientais recentes e futuras, não é um “motivo de força maior”, ele é causado pelas emissões antrópicas de poluentes, a maioria decorrente de fontes “sujas” de energia, ou seja, o homem é o único ser no Planeta responsável por estragar a qualidade de vida de todos os demais e dele mesmo, e cabe a ele tomar a responsabilidade por suas ações e omissões, do passado e do presente.
Sem essa tomada de responsabilidade, e sem a aplicação diária da precaução por cada indivíduo, empresa ou governo, não teremos futuro. Portanto, a tragédia está anunciada, mas e daí? Até 2015, quando Angra III provavelmente entrará em operação, todos já terão esquecido mesmo do exemplo do Japão…
FONTE: http://www.idbentes.com.br/2011/03/angra-iii-fica-na-%E2%80%9Cpedra-podre%E2%80%9D/

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